Gisele Almeida estava em sua casa ajudando sua mãe com um vestido de baile.
A mãe de Gisele estava ajustando um lindo vestido azul, que usaria no Baile mais tarde.
Gisele tinha 13 anos, e era muito prestativa e inteligente. A família Almeida, morava em uma linda fazenda, e Gisele era filha única.
O Sr. Carlos Almeida, pai de Gisele, estava descascando uma laranja, enquanto admirava seu belo e velho smoking preto, pensando no grande baile que trajaria com ele à noite.
Brutus, era um grande cachorro que havia na fazenda, um pastor alemão imenso, e fiel. Fazia sempre companhia a Gisele, que o adorava.
Ao cair da noite, Gisele estava fazendo seus trabalhos do colégio, enquanto observava a animação de seus pais nos preparativos para a festa que iriam.
Por volta das 20:30h, Sr. Carlos já estava com seu belo smoking, e Lúcia (mãe de Gisele), estava linda no seu vestido.
Sr. Carlos se dirige para Gisele e diz:
- Voltaremos de madrugada, não fique acordada até tarde, e não se esqueça de colocar o Brutus p/ fora.
(Gisele) - Pode deixar.
Gisele se despede dos pais, e volta para a sala, onde estava ligada a TV.
Brutus estava deitado no tapete.
Gisele dizia que colocava Brutus p/ fora de casa sempre, mas tinha um esquema:
Ele saía pela porta da frente, dava a volta na casa, e entrava pela janela do quarto de Gisele, que ficava estrategicamente aberta para a chegada do cão, que todas as noites dormia debaixo da cama de Gisele. Os dois eram inseparáveis.
Fazia muito frio naquela noite. Gisele desliga a TV, e continua a fazer suas lições, ouvindo a rádio local.
Foi então que ouviu a seguinte notícia:
- Foge do manicômio, um psicopata muito perigoso, a polícia está a procura dele desde as 19h. Mantenham a atenção dobrada até a captura do louco.
Gisele fica pálida no mesmo momento em que ouve a notícia, pois o manicômio ficava há uns 5 Km de sua fazenda.
Se ajoelha, e reza pedindo proteção a Deus.
Já se passavam das 22h, quando Gisele preparou um chocolate quente, tomou e foi para seu quarto.
Gisele, já estava mais calma quanto o fato de ter um maníaco a solta, pois Brutus estava sempre ao lado dela.
Ela se deitou na cama, desligou o abajur e se cobriu para dormir.
Antes de fechar os olhos, ela colocou a mão em baixo da cama e foi recebida a lambidas do fiel cão.
Tranquila, Gisele dorme.
Ela acorda no meio da noite, achando ter ouvido um barulho na casa. Ficou em silencio, mas não ouviu nada.
Levou a mão embaixo da cama, e novamente foi recebida a lambidas.
Um barulho vinha do banheiro, uma goteira na pia.
Um pequeno barulho como esse, no total silencio, se torna insuportável.
Mas Gisele não estava disposta a se levantar p/ ir fechar a torneira corretamente.
Porém, não conseguia dormir com aquelas gotas soando.
Levou a mão novamente embaixo da cama, e mais uma vez, lambidas receptivas.
Tomou coragem e se levantou para fechar a torneira que não deixava ela dormir.
Acendeu a luz do corredor ainda meio sonolenta e se dirigiu ao banheiro.
Ao abrir a porta do banheiro, ela acende a luz. Seu corpo inteiro foi tomado por um terrível pavor.
Pendurado pelo rabo, no chuveiro, estava Brutus, com a garganta cortada.
O chão do box, estava lavado de sangue, que ainda gotejava da garganta do cão.
Na parede de azulejos brancos, estava escrita com o sangue do animal, a seguinte frase:
"MANÍACOS TAMBÉM LAMBEM MÃOS!!!"
Fim.
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Conto de autoria de Fabio Jasmim. Todos os direitos autorais reservados ao autor desta obra.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Lua Branca: Desventuras e Caixões; por Fabio Jasmim
Tu.......
Tu.......
Tu........Clic... - Funerária Lua Branca, boa noite!?
- ...............................................................
- Alô!?
- ...............................................................
- Escuta aqui!! Isso é alguma brincadeira?!
- ..............................não...........................
A expressão facial da jovem loira se torna tensa.
- Desculpe senhor, minhas sinceras desculpas... Expresso minhas condolências neste momento.. Em que podemos ampará-lo??
Nenhuma voz se manifestou do outro lado da linha.
- Senhor? O senhor está na linha?
- .............................................................
A moça podia ouvir uma respiração arranhada, ao longe, naquele silêncio que se passava.
Sarah desliga, depois de tentar, em vão, manter comunicação.
'Deve estar em choque pela morte de um parente, e não soube lidar com essa situação..' - Pensou a moça, com um sentimento de culpa pela grosseria ao telefone..
Após alguns minutos, já eram 19h, e Sarah entra em uma sala cujas paredes serviam de mostruário para os modelos dos caixões.
Ela atravessa a sala, apaga a luz, e volta, trancando a porta ao sair.
Havia acabado seu expediente, e ela caminhava para o ponto de ônibus, que ficava a dois quarteirões da funerária.
Sarah tinha 27 anos, era loira, de cabelos encaracolados, esguia e solitária.
Não conheceu a mãe, e seu pai, morava em uma cidade vizinha. Sarah visitava seu pai quinzenalmente aos domingos.
Morava sozinha, em um pequeno apartamento. O local também era seu ateliê de pintura e, por ser pequeno, seu apartamento parecia menor ainda devido as distribuídas telas que alí permaneciam secando. A tinta óleo, além de demorar alguns dias pra secar, tem um cheiro forte, que Sarah já nem mais sentia, pelo convívio pleno.
Tinha um talento e tanto. E um hobby que lhe acrescentava mais dinheiro todo mês.
Sarah levanta o indicador direito, dando sinal pro ônibus, ela se senta lá atrás, meio desajeitada, enquanto disfarçadamente, conferia e guardava seu troco.
Passados 10 minutos, Sarah chega ao seu prédio.
Ela passa na portaria e pega sua correspondência com o Sr. Wilson, um simpático senhor, que ficava na portaria.
- Boa noite, senhor Wilson!!
- Boa noite, minha filha!! Que frio tem feito, não é?
- Pois é.. - Responde sorrindo.
- Chegaram mais correspondências, e aproveite para levar o novo contrato do aluguel e o informativo sindical..
Além de sua bolsa, Sarah se despedia de Sr. Wilson com vários papéis e correspondências. Era sexta feira, devido à greve dos correios, a correspondência de todo esse tempo, havia acumulado.
Sarah tranca a porta, e coloca todos os papéis sobre o balcão que ligava aquele mini corredor com a cozinha. Deixa a bolsa, e descalça os sapatos sem usar as mãos.
Após isso, ela segue para o quarto, e depois ao banheiro. No chuveiro, por um momento, Sarah lembrou do telefonema que recebera mais cedo, na funerária onde trabalhava. Ela sentia pena dos familiares. Ela sabia que para muitas pessoas, não é nada fácil ligar para uma funerária e pedir um caixão para alguém querido que morreu há poucas horas. Não se está acostumado com esse tipo de negociação, é uma ligação que ninguém pretende de fazer.. E as quais ela atendia, todos os dias..
Sarah muda seu pensamento ao perceber que estava há algum tempo olhando para o nada.
Desliga o chuveiro, se troca e vai para a sala.
No balcão da cozinha, em meio às correspondências, Sarah vasculha a procura do controle da Tv, ligando-a.
Do lado de dentro da cozinha, Sarah passa os olhos nas contas que já tinham passado da data de vencimento, e calculava mentalmente e precocemente os juros que viria a pagar.
Assina os novo contrato de locação, e pensa - a única prestação que eu consegui pagar no dia esse mês..
Em meio aos papéis, Sarah nota o bico de um envelope diferente. Era pequeno e azul bem escuro.
Pegando o envelope lentamente, Sarah franzia a testa.
Vira e lê a frase 'Em mãos'.
Abrindo o envelope, Sarah pega uma folha de caderno, dobrada quatro vezes.
Nesse mesmo momento, o micro-ondas apitava, anunciando que seu pedaço de lasanha congelada já estava quentinha.
Sarah deixa o envelope e o papel dobrado sobre o balcão, e pega seu jantar e talheres. Sua fome estava na frente na fila de prioridades. Estava curiosa, porém, a lasanha estava falando mais alto naquele momento.
Ela come sentada no sofá, enquanto assistia o noticiário na Tv. Nesse momento, o telefone toca.
- Alô?!
- Alô. Sarah?
- Sim.. Quem está falando?
- Isso não importa, queria saber quem é você, pois achei esse número em um papel nas coisas do meu filho.. E ele desapareceu há dois dias.. Você conhece o Johnny!?
Sarah arregala os olhos, pois não fazia a menor idéia de quem era Johnny, e de qual a razão do número de seu celular estar com um desconhecido..
- Minha senhora, me desculpe, mas eu não conheço o filho da senhora..
- E o que o número do seu telefone está fazendo no bolso de uma calça dele?
Após um breve silêncio, ela diz :
- É o que eu estou me perguntando também.. Me desculpe, não conheço nenhum Johnny, nunca nos falamos..
A mulher desliga o telefone sem nada dizer..
Sarah volta para o sofá com a testa enrugada, pensando em quem podia ser Johnny..
Instantes antes de colocar um pedaço de lasanha na boca, Sarah pensa em voz alta :
- O envelope!!
Ela deixa o prato, e caminha até o balcão da cozinha, desviando dos tripés com telas.
Ela pega o envelope e sua bolsa e volta rapidamente para o sofá, acendendo o abajur que havia ao lado.
Ela coloca os óculos, e quando começaria a ler o papel, o telefone de seu apartamento toca.. Ela deixa tudo no sofá, e se levanta, estica o braço e pega o telefone sem fio :
- Alô!?
- Alô, Sarah.
- Oi Sr. Dimitrius, o que houve?
Dimitrius era o patrão de Sarah.. O dono da funerária..
- Aconteceu algo terrível Sarah, terrível...
- Você recebeu um bilhete em sua residência?
Sarah estremece nesse momento, mas responde :
- Sim, mas ainda não li. Na verdade estava prestes a ler quando o senhor me ligou.
Então leia, e me encontre na funerária assim que acabar de ler..
- Agora?! Mas Sr. Dimitrius, o que houve, a funerária está fechada!!
- Leia, você vai entender, não sei como explicar o que aconteceu.
Dimitrius desliga o telefone.
Sarah volta para o sofá, desdobra o papel, e começa a ler.
"Sarah.. Sei que não nos conhecemos pessoalmente, e peço desculpas pela imprensão que lhe causarei. Mas no fundo, eu sou um cara legal.
Essa semana, minha vida mudou da água para o vinho. Tanto que consegui seu contato com aquele senhor mal-encarado que trabalha de manhã na funerária, para que você pudesse me ajudar. desculpe ter mentido, pois disse ser seu colega a ele, para que me desse seu número e endereço.
Minha namorada (que minha mãe sempre odiou) estava grávida, e nessa quarta-feira, entrou em trabalho de parto em seu apartamento. E me ligou.
Corri pra lá, visto que moramos bem perto, e ali mesmo na sala de estar, conduzi o parto de minha filhinha. E para a minha tristeza, o bebê nasceu morto.
Minutos depois, minha namorada começou a ter convulsões (Eclampsia), eu tentei ajudá-la, mas não sabia o que fazer. Ela também veio a falecer.
Imagino o que você deve estar achando, mas eu fiquei umas 3 horas na sala, em estado de choque, vendo meu destino ganhar uma forma gasosa.
Por isso, fui até a funerária, mas não soube o que dizer para aquele homem na manhã de quinta-feira.
Vi seu crachá na mesa, e improvisei: Disse que era seu colega, e aquele homem me deu o seu celular e seu endereço.
Tenho 23 anos, e não sei, assumo, o que fazer numa situação dessas. Ligo pra polícia? IML? Bombeiro?
Garanto que isso passou pela minha cabeça, em algum momento que tive consciência dos fatos.
Liguei hoje, no início da noite, novamente para a funerária, mas não soube o que dizer, desculpe se a assustei. Por isso escrevi esse bilhete. sei que parece loucura, mas desde 4ª feira que eu não vou pra casa. Estou no apartamento da Julie, ao lado de seu corpo e do corpinho da nossa filha. Não consigo abandoná-las aqui.
Tomei uma decisão. A que me pareceu menos dolorosa. Pagarei pela fechadura também, o dinheiro dos 3 está no meu bolso direito (Como não sabia ao certo o valor, deixei minhas economias, cerca de R$10.000, acho que dá, né?)
... Sei que não vai ser nada bonito de se ver, mas não poderia contar com ninguém.
Desculpe a má imprensão, e antecipadamente, muito obrigado!"
Johnny R.
Sarah, fica alguns instantes imaginando o que seria aquilo, e sai do apartamento, trancando a porta e se encaminhando, de táxi, para a funerária Lua Branca.
Em poucos minutos, Sarah avista do carro a fachada da funerária, e vê duas viaturas da PM, e alguns jornalistas na frente da mesma.
Ela desce do carro, e lentamente caminha rumo a funerária.
- Sarah!! Que bom que você chegou, cadê o bilhete? Ele deixou um aqui avisando que você saberia explicar o que aconteceu. E que.. cuidaria do devido pagamento..
- Como assim, Sr. Dimitrius, o que houve na verdade com esse tal Johnny.
- Seu amigo? Ele não disse nada..
- Ele não é meu amigo, é um cara que anda passando por uns grandes problemas.
- Andava passando, você quis dizer, né..
Sarah entrega o papel dobrado para Dimitrius, e caminha lentamente para dentro da funerária..
Um Fiat Uno estava parado na frente da funerária, com as portas abertas e o farol aceso, sendo vasculhado por alguns policiais..
Sarah entra, e vê alguns policiais peritos na sala dos caixões.
Ao entrar, automaticamente Sarah coloca sua suculenta lasanha no chão, junto com o suco que havia tomado no jantar.
Estavam três caixões deitados no chão, um pequeno e branco, com um bebê azulado, um contendo uma mulher com expressão de dor, e rosto pálido esverdeado, e no outro, estava em meio ao sangue e miúdos cerebrais, o corpo dele, com uma arma na mão direita.
Após vomitar, Sarah vai até o corpo, e com muito nojo mete a mão no bolso direito de Johnny.
(Policial) - Hey, O que faz aí?
(Sarah) - Pegando o dinheiro para pagamento dos caixões, ele me escreveu um bilhete, que está com o dono da funerária ali adiante..
O policial caminha até Dimitrius.
Sarah retira um envelope branco e gordo do bolso do jeans surrado de Johnny, e não contém uma lágrima ao ler do lado de fora:
'Muito obrigado, Sarah.'
Sarah se emociona, pois era a primeira vez que vendia caixões ao próprio defunto..
Dentro do envelope, além do dinheiro, havia um pequeno pedaço de papel, escrito:
"Que coincidência, uma bela coincidência está no céu."
Sarah, após alguns minutos, sai da funerária e fica alí na frente conversando com os policiais. Quando olha para o céu, e vê do que se tratava o comentário de Johnny:
Havia uma enorme, bela e branca lua cheia.
Fim.
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Conto de autoria de Fabio Jasmim. Todos os direitos autorais reservados ao autor desta obra.
Tu.......
Tu........Clic... - Funerária Lua Branca, boa noite!?
- ...............................................................
- Alô!?
- ...............................................................
- Escuta aqui!! Isso é alguma brincadeira?!
- ..............................não...........................
A expressão facial da jovem loira se torna tensa.
- Desculpe senhor, minhas sinceras desculpas... Expresso minhas condolências neste momento.. Em que podemos ampará-lo??
Nenhuma voz se manifestou do outro lado da linha.
- Senhor? O senhor está na linha?
- .............................................................
A moça podia ouvir uma respiração arranhada, ao longe, naquele silêncio que se passava.
Sarah desliga, depois de tentar, em vão, manter comunicação.
'Deve estar em choque pela morte de um parente, e não soube lidar com essa situação..' - Pensou a moça, com um sentimento de culpa pela grosseria ao telefone..
Após alguns minutos, já eram 19h, e Sarah entra em uma sala cujas paredes serviam de mostruário para os modelos dos caixões.
Ela atravessa a sala, apaga a luz, e volta, trancando a porta ao sair.
Havia acabado seu expediente, e ela caminhava para o ponto de ônibus, que ficava a dois quarteirões da funerária.
Sarah tinha 27 anos, era loira, de cabelos encaracolados, esguia e solitária.
Não conheceu a mãe, e seu pai, morava em uma cidade vizinha. Sarah visitava seu pai quinzenalmente aos domingos.
Morava sozinha, em um pequeno apartamento. O local também era seu ateliê de pintura e, por ser pequeno, seu apartamento parecia menor ainda devido as distribuídas telas que alí permaneciam secando. A tinta óleo, além de demorar alguns dias pra secar, tem um cheiro forte, que Sarah já nem mais sentia, pelo convívio pleno.
Tinha um talento e tanto. E um hobby que lhe acrescentava mais dinheiro todo mês.
Sarah levanta o indicador direito, dando sinal pro ônibus, ela se senta lá atrás, meio desajeitada, enquanto disfarçadamente, conferia e guardava seu troco.
Passados 10 minutos, Sarah chega ao seu prédio.
Ela passa na portaria e pega sua correspondência com o Sr. Wilson, um simpático senhor, que ficava na portaria.
- Boa noite, senhor Wilson!!
- Boa noite, minha filha!! Que frio tem feito, não é?
- Pois é.. - Responde sorrindo.
- Chegaram mais correspondências, e aproveite para levar o novo contrato do aluguel e o informativo sindical..
Além de sua bolsa, Sarah se despedia de Sr. Wilson com vários papéis e correspondências. Era sexta feira, devido à greve dos correios, a correspondência de todo esse tempo, havia acumulado.
Sarah tranca a porta, e coloca todos os papéis sobre o balcão que ligava aquele mini corredor com a cozinha. Deixa a bolsa, e descalça os sapatos sem usar as mãos.
Após isso, ela segue para o quarto, e depois ao banheiro. No chuveiro, por um momento, Sarah lembrou do telefonema que recebera mais cedo, na funerária onde trabalhava. Ela sentia pena dos familiares. Ela sabia que para muitas pessoas, não é nada fácil ligar para uma funerária e pedir um caixão para alguém querido que morreu há poucas horas. Não se está acostumado com esse tipo de negociação, é uma ligação que ninguém pretende de fazer.. E as quais ela atendia, todos os dias..
Sarah muda seu pensamento ao perceber que estava há algum tempo olhando para o nada.
Desliga o chuveiro, se troca e vai para a sala.
No balcão da cozinha, em meio às correspondências, Sarah vasculha a procura do controle da Tv, ligando-a.
Do lado de dentro da cozinha, Sarah passa os olhos nas contas que já tinham passado da data de vencimento, e calculava mentalmente e precocemente os juros que viria a pagar.
Assina os novo contrato de locação, e pensa - a única prestação que eu consegui pagar no dia esse mês..
Em meio aos papéis, Sarah nota o bico de um envelope diferente. Era pequeno e azul bem escuro.
Pegando o envelope lentamente, Sarah franzia a testa.
Vira e lê a frase 'Em mãos'.
Abrindo o envelope, Sarah pega uma folha de caderno, dobrada quatro vezes.
Nesse mesmo momento, o micro-ondas apitava, anunciando que seu pedaço de lasanha congelada já estava quentinha.
Sarah deixa o envelope e o papel dobrado sobre o balcão, e pega seu jantar e talheres. Sua fome estava na frente na fila de prioridades. Estava curiosa, porém, a lasanha estava falando mais alto naquele momento.
Ela come sentada no sofá, enquanto assistia o noticiário na Tv. Nesse momento, o telefone toca.
- Alô?!
- Alô. Sarah?
- Sim.. Quem está falando?
- Isso não importa, queria saber quem é você, pois achei esse número em um papel nas coisas do meu filho.. E ele desapareceu há dois dias.. Você conhece o Johnny!?
Sarah arregala os olhos, pois não fazia a menor idéia de quem era Johnny, e de qual a razão do número de seu celular estar com um desconhecido..
- Minha senhora, me desculpe, mas eu não conheço o filho da senhora..
- E o que o número do seu telefone está fazendo no bolso de uma calça dele?
Após um breve silêncio, ela diz :
- É o que eu estou me perguntando também.. Me desculpe, não conheço nenhum Johnny, nunca nos falamos..
A mulher desliga o telefone sem nada dizer..
Sarah volta para o sofá com a testa enrugada, pensando em quem podia ser Johnny..
Instantes antes de colocar um pedaço de lasanha na boca, Sarah pensa em voz alta :
- O envelope!!
Ela deixa o prato, e caminha até o balcão da cozinha, desviando dos tripés com telas.
Ela pega o envelope e sua bolsa e volta rapidamente para o sofá, acendendo o abajur que havia ao lado.
Ela coloca os óculos, e quando começaria a ler o papel, o telefone de seu apartamento toca.. Ela deixa tudo no sofá, e se levanta, estica o braço e pega o telefone sem fio :
- Alô!?
- Alô, Sarah.
- Oi Sr. Dimitrius, o que houve?
Dimitrius era o patrão de Sarah.. O dono da funerária..
- Aconteceu algo terrível Sarah, terrível...
- Você recebeu um bilhete em sua residência?
Sarah estremece nesse momento, mas responde :
- Sim, mas ainda não li. Na verdade estava prestes a ler quando o senhor me ligou.
Então leia, e me encontre na funerária assim que acabar de ler..
- Agora?! Mas Sr. Dimitrius, o que houve, a funerária está fechada!!
- Leia, você vai entender, não sei como explicar o que aconteceu.
Dimitrius desliga o telefone.
Sarah volta para o sofá, desdobra o papel, e começa a ler.
"Sarah.. Sei que não nos conhecemos pessoalmente, e peço desculpas pela imprensão que lhe causarei. Mas no fundo, eu sou um cara legal.
Essa semana, minha vida mudou da água para o vinho. Tanto que consegui seu contato com aquele senhor mal-encarado que trabalha de manhã na funerária, para que você pudesse me ajudar. desculpe ter mentido, pois disse ser seu colega a ele, para que me desse seu número e endereço.
Minha namorada (que minha mãe sempre odiou) estava grávida, e nessa quarta-feira, entrou em trabalho de parto em seu apartamento. E me ligou.
Corri pra lá, visto que moramos bem perto, e ali mesmo na sala de estar, conduzi o parto de minha filhinha. E para a minha tristeza, o bebê nasceu morto.
Minutos depois, minha namorada começou a ter convulsões (Eclampsia), eu tentei ajudá-la, mas não sabia o que fazer. Ela também veio a falecer.
Imagino o que você deve estar achando, mas eu fiquei umas 3 horas na sala, em estado de choque, vendo meu destino ganhar uma forma gasosa.
Por isso, fui até a funerária, mas não soube o que dizer para aquele homem na manhã de quinta-feira.
Vi seu crachá na mesa, e improvisei: Disse que era seu colega, e aquele homem me deu o seu celular e seu endereço.
Tenho 23 anos, e não sei, assumo, o que fazer numa situação dessas. Ligo pra polícia? IML? Bombeiro?
Garanto que isso passou pela minha cabeça, em algum momento que tive consciência dos fatos.
Liguei hoje, no início da noite, novamente para a funerária, mas não soube o que dizer, desculpe se a assustei. Por isso escrevi esse bilhete. sei que parece loucura, mas desde 4ª feira que eu não vou pra casa. Estou no apartamento da Julie, ao lado de seu corpo e do corpinho da nossa filha. Não consigo abandoná-las aqui.
Tomei uma decisão. A que me pareceu menos dolorosa. Pagarei pela fechadura também, o dinheiro dos 3 está no meu bolso direito (Como não sabia ao certo o valor, deixei minhas economias, cerca de R$10.000, acho que dá, né?)
... Sei que não vai ser nada bonito de se ver, mas não poderia contar com ninguém.
Desculpe a má imprensão, e antecipadamente, muito obrigado!"
Johnny R.
Sarah, fica alguns instantes imaginando o que seria aquilo, e sai do apartamento, trancando a porta e se encaminhando, de táxi, para a funerária Lua Branca.
Em poucos minutos, Sarah avista do carro a fachada da funerária, e vê duas viaturas da PM, e alguns jornalistas na frente da mesma.
Ela desce do carro, e lentamente caminha rumo a funerária.
- Sarah!! Que bom que você chegou, cadê o bilhete? Ele deixou um aqui avisando que você saberia explicar o que aconteceu. E que.. cuidaria do devido pagamento..
- Como assim, Sr. Dimitrius, o que houve na verdade com esse tal Johnny.
- Seu amigo? Ele não disse nada..
- Ele não é meu amigo, é um cara que anda passando por uns grandes problemas.
- Andava passando, você quis dizer, né..
Sarah entrega o papel dobrado para Dimitrius, e caminha lentamente para dentro da funerária..
Um Fiat Uno estava parado na frente da funerária, com as portas abertas e o farol aceso, sendo vasculhado por alguns policiais..
Sarah entra, e vê alguns policiais peritos na sala dos caixões.
Ao entrar, automaticamente Sarah coloca sua suculenta lasanha no chão, junto com o suco que havia tomado no jantar.
Estavam três caixões deitados no chão, um pequeno e branco, com um bebê azulado, um contendo uma mulher com expressão de dor, e rosto pálido esverdeado, e no outro, estava em meio ao sangue e miúdos cerebrais, o corpo dele, com uma arma na mão direita.
Após vomitar, Sarah vai até o corpo, e com muito nojo mete a mão no bolso direito de Johnny.
(Policial) - Hey, O que faz aí?
(Sarah) - Pegando o dinheiro para pagamento dos caixões, ele me escreveu um bilhete, que está com o dono da funerária ali adiante..
O policial caminha até Dimitrius.
Sarah retira um envelope branco e gordo do bolso do jeans surrado de Johnny, e não contém uma lágrima ao ler do lado de fora:
'Muito obrigado, Sarah.'
Sarah se emociona, pois era a primeira vez que vendia caixões ao próprio defunto..
Dentro do envelope, além do dinheiro, havia um pequeno pedaço de papel, escrito:
"Que coincidência, uma bela coincidência está no céu."
Sarah, após alguns minutos, sai da funerária e fica alí na frente conversando com os policiais. Quando olha para o céu, e vê do que se tratava o comentário de Johnny:
Havia uma enorme, bela e branca lua cheia.
Fim.
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Conto de autoria de Fabio Jasmim. Todos os direitos autorais reservados ao autor desta obra.
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